sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O VELHINHO DO SACO VERDE


O “Velhinho do Saco Verde” era um magrinho mulato e pobre que vivia num barracão do Jardim Schaffer. Como não tinha o que comer, alimentava-se de poodles e, eventualmente, churrasqueava os urubus da torre da Telepar. Preguiçoso, passava a maior parte dos seus dias criando carrinhos e bonecas de brinquedo, que confeccionava com latinhas de redbull, garrafas pets, pinhas recolhidas nas trincheiras do expresso e, é claro, ossinhos de poodle e dentes de urubu.
No final do ano, época de férias, o garoto redobrava a sua falta do que fazer e, com os brinquedos cuidadosamente arremessados dentro de um saco amarelo, saía zanzando. Como além de preguiçoso era também estúpido, não lhe passava pela cabeça vender os brinquedos para obter lucro. Sua vida, portanto, não fazia sentido.
O pobre “piá do saquinho amarelo”, como vinha ficando conhecido, começou então a doar seus carrinhos e bonecas para as crianças de rua dos bairros periféricos da cidade, como o Ecoville. (*asterisco: o epíteto “Velhinho do Saco Verde” só lhe foi atribuído depois que 1) Envelheceu (óbvio!); 2) Uma empresa de refrigerantes da cidade decidiu modificar-lhe a cor do saco).
A lenda tomou corpo mesmo quando, mais tarde, já enrugado e barbudo (tinha apenas 19 anos, porém uma alimentação à base de carne de poodle faz envelhecer rapidamente as células do corpo humano), recebeu seis tiros na cara, disparados pela hábil mão de um professor universitário.
O resto é história, como se costuma dizer... Logo após o enterro, uma empresa local de refrigerantes, a Babe-Cola, buscando por um garoto-propaganda “eficiente e gratuito”, comprou os direitos de explorar o cadáver e o translocou, devidamente empalhado, para a praça de alimentação de um shopping agora famoso.
E assim surgiu a lenda do Velhinho do Saco Verde...

Moral: Se em vida, o “Piá do Saquinho Amarelo” não merecia mesmo existir, pois era improdutivo, não lucrava, não comprava, não se alimentava de mcdonalds; em morte, o “Velhinho do Saco Verde” acabou tornando-se um ícone dentro do salutar universo do Consumo e do Giro de Capital.

Em tempo: Em Curitiba, notoriamente, tudo tem seu happy end. O professor que atirou em nossa lenda local, por exemplo, foi absolvido pelo júri. Constatou-se que estava, no dia do ocorrido, sob intensa pressão psicológica, motivada pela recente aquisição de uma Pajero zero quilômetro. O fato de o revólver ter sido disparado seis vezes serviu como prova de que o professor tinha mesmo os dedos trêmulos na hora do acidente.

1 comentários:

Sophia Bellatri disse...

Muito bom, sr. Brum.