segunda-feira, 7 de março de 2011

de Heróis e Donzelas

O Herói chegou a galope, de Tão-Distante, para nos salvar. (Tão-Distante é uma vilazinha com uma grande cruz de madeira no centro). Dizem que de lá ele se veio, foragido, por medo de serpente. Poucos crêem, porque o Herói é completamente esbelto. Mas então, passou a bem viver aqui, sob nossa cruel hospitalidade.

De princípio dava bom-dia de voz, e nós, em câmbio, lhe pisávamos um dos pés duramente. “Ora, ora...”, ele gemia lacrimejando as retinas, e assim descobriu que o amávamos deveras. Logo chegava, uma vez mais, os pés marchando mancos, cheios de unhas encravadas, sorrindo.

Ah, o Herói: recordamos a manhã primeira em que nos ofereceu a mão para o cumprimento – “Muito prazer...”, foi dizendo. Nós, caninas, tomamos seus dedos e lhes mordiscamos toda a pele, bagres na isca. Ele exultava por trás dos bigodes: “Ah, madre, ah, madre...”, e nada cantava.

O Herói passava as noites fazendo curativos. Ninguém prestava socorro – nem general, nem mesmo qualquer de nós, Donzelas: o Herói era para ser de aço, não era?

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Houve a vez em que implorou por um abraço e, em troca, lhe disparamos três tiros nas costelas. Ele caiu, em jubiloso decúbito e gemendo.

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Sangrava nos fins-de-semana, sem implorar qualquer misericórdia. Dizia também: “Vocês sempre serão todas minhas boas amigas, me abracem mais e mais”. Para agradar, domesticado, esfregava a mão direita pelo topo do crânio semicalvo, o que nos divertia mais.

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Um dia, finalmente, nos pediu o beijo.


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