domingo, 5 de fevereiro de 2012

ELeTr0DoMéstICoS

ninguém está sozinho, você está sozinho, eu estou também. eu comecei falando com os eletrodomésticos. o aparato de som, por exemplo. ele recusava tocar um ou outro cd, tinha um paladar musical próprio, cuspia grateful dead sem constrangimento. então eu dizia pra ele, tá bom, você que sabe...
quando me ocorreu em público pela primeira vez, houve entre os que perceberam um suspiro apreensivo, mas preferiram pensar que se tratava de mais uma de minhas atuações, minhas costumeiras pequenas performances pessoais. eu era assim, representava todo o tempo, e eles também, e você.
depois o sofá. eu queria que ele soubesse, o sofá, parabéns sofá, você está bastante confortável hoje!:

S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0L fÁ S0-0-0-0L-L

, cantei para ele.
adolescente, eu tinha a idéia fixa de uns desenhos que eu achava “A” idéia para desenhos: frutas devoravam as pessoas. laranja, maçã, melancia, uva, abacaxi, banana, com mãozinhas e bracinhos punham nas bocas uns pequenos humanos. lembro a capa de disco em que os robôs gigantes pegavam nas mãos as pessoinhas que somos e estraçalhavam. Queen - quem também meu aparato de som lançou fora. bravejei, se você recusar este mais uma vez, eu...
o quê?, ele disse. quase dei-lhe um tapa e ele calou.
a inteligência das coisas varia como as inteligências dos animais - os gatos são espertos, os cães são amigos, formigas são unidas. liquidificadores são tontos, computadores são e-motivos: dante, o 486 que vive aqui conosco, me deixa às vezes sem as iniciais do meu nome, e hoje roubou as maiúsculas.
a geladeira é uma porta: bati nela, perguntei, tudo bem? posso abrir? mas quando puxei o trinco a luzinha não acendeu e eu achei que fora indiscreto - devia ter esperado a resposta. pedi desculpas - a intimidade da geladeira... subordinei-me, mas sem perceber no primeiro momento. depois pensei na petulância da parte dela. ora! não acender a luzinha pra mim! voltei lá e abri a porta de golpe. a luz acendeu, convidativa. a geladeira me sorria de novo. a geladeira? de manhã passei um pano nas laterais da lataria, limpei as prateleiras dela.
não, eles não abrem a boca para falar como nos desenhos animados, eu não tenho alucinações. a dificuldade que as pessoas têm para entender as coisas é que elas - coisas - obviamente não usam bocas; há sim um outro sistema. a televisão, amiga íntima e babá, parlante, misto de mãe e ministro. já o fogão me queimava sempre, era ciúmes, eu sabia. da geladeira. coloquei um banquinho a seu lado e conversamos toda a tarde.
então aconteceu: fazia pouco sol e saí para colher laranjas no quintal. não ventava mas as árvores moviam os dedos. colhi as quatro maiores e maduras que pude e trouxe para a cozinha. quando lancei a faca à primeira, um som estranho senti. foi aí que pensei, há quanto tempo eu não espremia uma laranja?
continua no capítulo anterior...
..
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ZAIUS em 23/09/2011

video

ZAIUS
Bárbara Kirchner, Junior Lemos, Leandro Leal, Marcelo Brum-Lemos.
"Novo Relatório: Perplexo" (poema de Antônio Caos / música Marcelo Brum-Lemos)
in Ebulição da Escrivatura. 1983.

sábado, 27 de agosto de 2011

O CACHORRO-DE-MIM (SONHOS EM AGOSTO)

I


Hoje descobri aparvalhado

- porque me contaram

e quando vim ver era mesmo -

Eu vivia num quadrado!:

Um cachorro! Isso mesmo!

Um cachorro!

Eu quadrado.

Eu!!!

Au!!!

Vejo as patas, o rabinho abanando!

Sinto escorrer-me a baba,

sou baixíssimo suplicante!

Corro ao redor de mim mesmo, otário!

“Deus, que sonho idiota!”,

sonhei ao mesmo tempo.


II


Mas, percebam!:

Se é que eu acordei, pude refletir!

Nós somos mesmo.

Eu sou mesmo o cachorro-de-mim!

Entendem?


III


Em agosto os homens índios vêm roer nossas dores.

É quando minhas mãos cheiram a cachorros.

Meu nariz vai até a esquina,

focinho.

Nem dou por isso.

Ah, não! Este sonho de novo, não!,

conjecturo.

Minhas roupas cheiram mal, quentes.

Um gigante

tamanho-de-tufão / pés-de-formigas.

Preciso de um café.

Mas minhas patas de cachorro!

Preciso de um café, suplico.

Melhor não tocar nada.

Um café! Por favor!

Ergo a patinha ridícula.

Babo mais um pouco.


IV


Quisera ter uma astronave e ser o capitão.

O capitão da astronave!

Mas apenas vou até a janela,

coloco a mente para fora, devagarinho,

e canto: “- Au de mim! Au de mim...!”...




quarta-feira, 27 de julho de 2011

BALEIAS NAVEGANDO O VERDE

baleias navegando o verde

mas não exatamente baleias:

metade baleias metade

morcegos metade pedras

metade sombras metade-baleias.

baleias navegando o centro

morcegos matando a sede

morcegos de ar sedentos

morcegos de vôos verdes

batmans de águas doces

batmans no mar cinzento

baleias a céu aberto

baleias o céu é teu ventre

areias navegando o centro

velas vivas de além tormentos

totem louco esculpido em vento

baleias navegando o centro

baleias navegando o centro

baleias baleias

video

quarta-feira, 20 de julho de 2011

PITECANTROPO e OSGEMEOS!!!! Ao vivo no Museu Oscar Niemeyer!!!

video

JUNIOR LEMOS: baixo
MARCELO BRUM-LEMOS: bateria
LEONEL LEAL: teclados
GIU ANDRESO: guitarra
performance filmada por Phelipe Rangel em 22 e maio de 2009, no MON, Curitiba do Brasil.